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Ideias para beber de outra fonte (de hormônios de alegria)

Idéias práticas de como substituir nossos momentos efêmeros de felicidade online por alternativas mais saudáveis e interessantes


Existem basicamente quatro hormônios responsáveis pelos nosso sentimento de alegria: dopamina, oxitocina, serotonina e endorfina. Cada hormônio é secretado mediante situações diferentes e todos tem um papel importante na nossa fisiologia e na nossa saúde física e mental. O mecanismo e todos os detalhes envolvidos no funcionamento do cérebro e do papel dos hormônios no nosso organismo é complexo. Ainda existem perguntas não respondidas. Sabemos que o sistema foi herdado dos nossos ancestrais primatas, que possuem como habitat regiões de selva e um estilo de vida que pouco lembra o do homem moderno.


Por este motivo, a nossa arquitetura mental não evoluiu para lidar com uma carga de estímulos tão alta e em um intervalo de tempo curto. A psicologia possui muitos estudos sobre o tema e o resumo dos resultados é que nessas condições nós ficamos um tanto malucos. A indústria da atenção faz uso deste ponto fraco e de outros (temos vários) estudados na psicologia para criar aplicativos e sites que tem como objetivo nos tornar viciados em um produto ou serviço. Para facilitar o entendimento do assunto, vou exemplificar de como cada hormônio é explorado no design de aplicativos e websites e de exemplos de como podemos agir melhor.


Dopamina: A alegria de ser recompensado


A dopamina é secretada quando sentimos que estamos prestes à sermos recompensados por algo. Na natureza, a dopamina tem a função de nos dar uma motivação final (utilizando de uma reserva de energia extra) para obter nosso objetivo. Imagine um caçador prestes a abater a caça, por exemplo.


Como está sendo usado: Você recebe notificações de aplicativos, algumas interessantes e outras sem qualquer utilidade. Isso parece completamente inofensivo para você? Não é.


O fato de você ser recompensado por si só não constitui um problema. Mas existe uma "falha" na arquitetura mental que causa um efeito colateral toda vez que você não conseguir prever um padrão que envolva o seguinte:


- Quando você vai receber a recompensa.

- Qual vai ser o tamanho da recompensa.


O sistema está preparado para as descargas de dopamina que ocorrem pouco frequentemente e quando temos a confirmação de que vamos ser recompensados (imagine que você pediu uma pizza e a entrega chegou). No caso deste esquema artificial de recompensa variável (imagine que você pediu a pizza mas não sabe se ela vêm ou mesmo de que sabor vai ser), a cada repetição do ciclo (desejo pela pizza + não sabe se virá ou de que sabor será) o cérebro fortalece uma conexão neural que permite que você antecipe a recompensa que vai receber e a sua descarga de dopamina apenas realizando a sua busca (imagine que você tenha um aplicativo para verificar se a pizza vai vir ou não e qual será o sabor da mesma). Isto impulsiona você a constantemente verificar se você vai ser recompensado (a pizza vai vir? a pizza vai vir? e agora?). A cada repetição do ciclo o caminho neural no cérebro vai se fortalecendo.


Depois de um tempo, sem perceber, você estará constantemente verificando as redes sociais ou acessando o seu email, por exemplo.

O que seria melhor: Online: Reduzir o número e a frequência de estímulos, desligando as notificações ou deixando apenas aquelas que são sempre importantes ou previsíveis. Você pode ler sobre mais dicas neste post. Offline: Ter um hobby que você goste que proporcione atividades cuja a frequência e o resultado da recompensa sejam previsíveis. Por exemplo, você pode montar quebra-cabeças ou tocar um instrumento.

Um exemplo de uma fonte natural de alegria.

Oxitocina: A nossa necessidade de estar socialmente conectado


A oxitocina é secretada quando nos sentimos conectados com as pessoas quando confiamos nelas. Este hormônio possui uma função importante no período da amamentação, por exemplo, estimulando a produção de leite pela mãe e a ligação entre a mamãe e o bebê.


Como está sendo usado: Storytellers profissionais criam estórias com conteúdo emotivo forte para que o leitor crie empatia com o texto e proporcione no mesmo uma mudança de opinião ou crie no leitor um comportamento desejado pelo autor.


Por exemplo, uma estória triste sobre uma viagem de avião que terminou em desastre pode levar o leitor a fazer a próxima viagem de trem.

O que seria melhor: Online: Procure outras canais de comunicação que não sejam a mídia ou redes sociais para criar empatia com as pessoas. Existem muito fóruns de discussão online onde a qualidade de informação é superior a das redes sociais. Offline: Procurar uma forma mais natural para se conectar com as pessoas, como praticando esportes, frequentando clubes (porque não um clube de leitura?) ou voltando a estudar, por exemplo.


Serotonina: A nossa necessidade de ser reconhecido


Esse hormônio é secretado quando nos sentimos reconhecidos e respeitados socialmente. A função social é um legado importante herdados dos primatas. Estar no topo da hierarquia significa, entre outras coisas, mais chances de se acasalar e portanto de perpetuar os seus genes, mantendo viva a espécie. Atualmente, este hormônio normalmente vem associado à ansiedade e estresse, pois as condições de super-exposição online criam expectativas de reconhecimento social inalcançáveis e julgamentos distorcidos da realidade, principalmente com relação à aparência física dos usuários.


Como está sendo usado: As redes sociais possuem recursos que permitem aos usuários curtirem as postagens dos usuários. Isto cria uma competição social por reconhecimento.


Se você fizer uma postagem e receber muitas curtidas, irá garantir uma boa dose de serotonina (reconhecimento) e também de dopamina (afinal, você conseguiu, não é mesmo?).

O que seria melhor: Online: Se você gostou do post, em vez de "curtir" procure saber como entrar em contato com a pessoa que o escreveu. Comece enviando um email falando o porquê gostou do post e buscando saber mais a respeito. Se a resposta for amigável convide para uma conversa por videoconferência. Offline: Que tal realizar ações para o bem da comunidade, como trabalho voluntário?


Endorfina: Nosso analgésico natural


A endorfina é secretada quando estamos com dor, fadiga e estresse. Ela funciona como analgésico e reduz os efeitos do estresse, mas apenas por um curto período de tempo.


A sua finalidade é original era de proporcionar uma chance de escapar de um predador que nos tenha abocanhado, por exemplo, numa fuga desesperada.

Como está sendo usado: É mais comum ver esse hormônio sendo explorado no mundo dos games online. Criam-se situações desafiadoras e que induzem o estresse psicológico. Vencer estes desafios pode acabar exigindo muito esforço e estresse, o que induz a liberação desse hormônio.


O que seria melhor: Online: Antes de começar a jogar, coloque um temporizador marcando sessenta minutos. Quando o despertador tocar você saberá que o tempo acabou e está na hora de dar uma caminhada. Offline: Realizar atividades físicas de moderada intensidade e que proporcione desafios interessantes sob orientação de um profissional de educação física e após uma avaliação médica.


É interessante lembrar que pode haver a secreção de mais de um hormônio simultaneamente. A dopamina, por exemplo, está quase sempre presente nas nossas interações online, sozinha ou associada a outros hormônios. Também não custa lembrar que os hormônios citados neste post são responsáveis pelos nossos sentimentos de alegria. No caso de sentimentos desagradáveis como medo e tristeza, por exemplo, hormônios diferentes estão envolvidos. No corpo humano podem ser encontrados 68 hormônios diferentes.