Nossa estranha relação com os robôs

Atualizado: 17 de Out de 2019

Vamos explorar dois aspectos intrigantes sobre a nossa relação com a tecnologia, mais precisamente com os robôs.


Hoje em dia está na moda falar sobre robôs. Principalmente sobre como no futuro próximo eles vão nos substituir, tomar os nossos empregos e nos escravizar. Mas vamos deixar o apocalipse de lado para falar sobre outro aspecto importante. Eu separei dois paradoxos interessantes na nossa relação com a robótica e que pode experimentada por qualquer pessoa. No primeiro, vamos conhecer um problema que nos assombra sempre que criamos um robô com aparência humana quase perfeita. E no segundo caso, vamos verificar o que acontece quando a tecnologia automatiza certos processos e aproveitar para explicar dois parâmetros que podemos usar para analisar e escolher uma solução de tecnologia. 


O Vale da Estranheza


O Vale da Estranheza é um relacionamento hipotético entre o grau de semelhança estética de um objeto com um ser humano e a resposta emotiva a este objeto. Observou-se que pessoas em contato com réplicas humanas (androides) cuja aparência estética eram quase perfeitas, causavam emoções negativas nas pessoas, como repulsa e medo.  Não se sabe ainda ao certo o que causa este comportamento. Existem várias teorias que tentam explicar este comportamento:


- Seleção de melhor parceiro para perpetuar a espécie

- Autopercepção da mortalidade do indivíduo 

- Repulsa a seres patógenos

- Paradoxo sorites

- Violação de normas humanas

- Definição religiosa da identidade humana

- Pistas perceptivas conflitantes

- Ameaça a singularidade e identidade humanas



Pareço uma estranha para você?

Se aprofundar nestas teorias não é o foco deste texto e sim passar a ideia de que os robôs que achamos legais e bonitinhos são aqueles que são absolutamente perfeitos na sua aparência humana ou bem diferente de nós. Isto mostra o quanto complexa é a nossa relação com a tecnologia e portanto nem sempre geramos relacionamentos saudáveis e equilibrados com a mesma.

O gráfico abaixo apresenta uma estimativa empírica de emoções resultantes ao se apresentar imagens de faces de réplicas humanas. Observe como as emoções negativas estão concentradas na porção que antecede e sucede o ponto mais baixo da curva. Este é o ponto onde o fenômeno do Vale da Estranheza é observado. 





Estimativa empírica de emoções resultantes ao se apresentar imagens de faces de réplicas humanas. By Half-pass - Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=43809080

A Automação que nos Transforma Neles


Um outro caso interessante da nossa relação com os robôs é quando a tecnologia "resolve o nosso problema" mas nos transforma em robôs.


Um bom exemplo disto são os sistemas de montagem assistida por luz (Light Guided Assembly - LGA) como este utilizados na indústria 4.0. A proposta é criar uma capacidade super-humana de não errar nunca, além de nos capacitar instantaneamente com conhecimento técnico para cumprir uma tarefa. No entanto, o que ocorre é que a tecnologia neste caso substitui o nosso poder de decisão como seres humanos, o que é algo que produz efeitos colaterais incapacitantes. É um paradoxo, pois a solução que nos capacita, a médio prazo irá nos deixar alienados. Esta solução é muito pior, do ponto de vista psicológico, do que substituir o humano por um robô para executar a tarefa, já que deixa o mesmo em uma condição limitante, tanto física quanto mentalmente.



Será este seu substituto?

Este exemplo é apenas um de muitas soluções existentes para auxiliar humanos a realizar tarefas mas que podem se tornar um grande problema. É importante destacar dois parâmetros importantes que devem ser avaliados neste caso. Primeiro, deve-se avaliar se a solução oferece apoio para que o usuário decida ou se ela decide pelo usuário. Um site de busca na Internet é, no geral, uma boa ferramenta de tecnologia, tendo em vista que ele realiza o árduo trabalho de vasculhar bilhões de sites e nos oferece um relatório instantâneo para que possamos tomar a decisão de qual fonte de informação (ou desinformação) acessar. Outro parâmetro de grande importância que deve ser analisado é se existe mérito na solução, ou seja, se ela vai realmente agregar valor para nós, como seres humanos. Isto parece difícil, a princípio, mas é fácil entender com um exemplo.


Imagine dois empregados de uma fábrica. Empregado A é portador de uma deficiência visual. Já o empregado B não possui nenhuma deficiência física. Qual dos dois precisa de um robô que o guie na sua chegada ao trabalho por dentro da fábrica para o seu posto de trabalho? Vamos analisar:


O Empregado B, conforme relatado acima, não é portador de nenhuma deficiência. Portanto, pode se utilizar da visão e da sua memória para localizar-se com eficiência. Estas habilidades foram desenvolvidas durante milhares de anos, desde que os nossos ancestrais, que eram caçadores e coletores, vagavam pelo planeta. Nós temos uma tendência evolutiva a sermos bons nisto. Por este motivo, é melhor que a decisão de virar a esquerda ou direita seja nossa. Afinal, passamos por milhares de anos de testes e ajustes.


O Empregado A, é portador de deficiência visual. Como ele não possui o sentido da visão para ajudá-lo, a princípio ele pode se beneficiar de uma solução, como um robô por exemplo, para guiá-lo pelas instalações da fábrica. Isto é mérito. Mas com relação ao seu poder de decisão, como a solução o preservaria? Talvez no futuro um robô consiga transmitir o que o mesmo está vendo para o cérebro do seu usuário humano diretamente à fim de que este último decida por onde ir. Mas por agora, a melhor solução para este caso ainda seria um outro ser humano, ou mesmo um cão guia. Eles continuariam a decidir pelo deficiente, mas simplesmente não temos como colocar para competir robôs desenvolvidos no decorrer de décadas de estudo com milhares de anos de evolução orgânica a qual foram submetidos cães e pessoas.


Neste caso específico portanto, nenhum dos dois precisaria de um robô para este fim. Isto nos lembra que a tecnologia é apenas uma ferramenta e a protagonista da história devem ser sempre as pessoas.


Outro caso interessante do mesmo fenômeno ocorre atualmente com os assistentes virtuais (Siri da Apple, Alexa da Amazon entre outros). Como muitos já devem ter percebido, a nossa forma de comunicação oral é extremamente complexa e a variedade de sotaques e estilos é enorme. Por isso, é frequente o assistente não entender o que a gente fala. O que fazemos na tentativa de se comunicar melhor? Alteramos a estrutura da frase e a modulação (velocidade, tom e ritmo) para se equiparar com o interlocutor (o assistente). Com isso, sem perceber, nos transformamos em robôs para nos comunicarmos melhor com um robô virtual. Este problema, por sinal, é um dos desafios que estão sendo enfrentados incansavelmente pelas equipes de desenvolvimento destes projetos de inteligência artificial (e como descobrimos recentemente, com a participação dos usuários).


Não deixe de se registrar gratuitamente no nosso blog clicando no botão "Login/Registre-se"!

Santa Catarina, Brasil

© 2020 by Calm Tech ®